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sábado, 29 de junho de 2013

Cidade e Cidadania

Sociedades vivem em cidades e “cidade” é o lugar onde deve concentrar ofertas de serviços de infra-estrutura urbana, culturais e de consumo reunindo neste espaço diversas atividades humanas.

Já o termo “cidadania” abrange as implicações decorrentes de uma vida em sociedade, ou seja, pressupõe valores sociais que determinam ao indivíduo um conjunto de deveres e direitos. Logo, cidadania é o direito de ter direito.

A cidade deve aportar espaços de viver, habitar, apreender, trabalhar, morrer, desenvolver, de tempo perdido, de memória e esperança. Nossas emoções dependem disso, sobretudo dos lugares onde passamos nosso tempo. As cores, as luzes, a organização do ambiente urbano podem nos estimular a criatividade, mas também passar solidão, tédio ou desconforto.

Aspectos permanentes determinam um modo de vida característico dos cidadãos de um lugar. Portanto, cidade não é cenário. Casa, espaço de vivência coletiva, cidade é a identidade de um cidadão que a constrói, cuida e age a cada dia.

A gestão pública que a administra deve ser integrada e aportar instrumentos, ferramentas e equipamentos para promover o bem estar e saúde do cidadão através dos serviços que lhe compete, por exemplo, o saneamento ambiental, transporte público, segurança pública, a promoção do trabalho e distribuição de renda. Ainda, cabe a gestão fomentar estratégias de desenvolvimento que integrem o patrimônio histórico e a necessidade emergente funcional do lugar, a gestão ambiental e territorial.

As ruas, por exemplo, como espaços de vivência coletiva, devem ter paradouros de ônibus, telefones públicos, floreiras, lixeiras e os containeres de lixo. É freqüente ver estes equipamentos sem qualquer cuidado e integração com a paisagem, além da falta de segurança e limpeza destes espaços e dos elementos urbanos. Muitas vezes o indivíduo não se percebe da degradação ambiental de convívio urbano e assim vive-se alheio, sem sentimento e emoção. Excluídos da sociedade e do lugar a qual é inserido.

As Conferências das Cidades, como aconteceu na semana passada em Caçapava do Sul, promove uma gestão democrática e participativa dos cidadãos, seja pelos representantes das organizações e movimentos sociais, permitindo a sociedade refletirem e deliberar sobre o direito à cidade.

Publicado impresso no dia 28junho2013 na Gazeta da Caçapava

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A paisagem urbana do centro de Manaus

É na tranqüilidade do domingo à tarde, quando os cidadãos descansam da sua jornada de trabalho que saio a olhar o centro da cidade. Manaus do lugar de trabalhar e apreender. Viver e viajar. Lugar de tempo perdido e de esperança. Tão rica e tão desprovida.

Percebo que o novo modo de ser nos faz afeiçoados à agitação e a constância e outras qualidades já não nos apetecem. Meus olhos seguem em direção de edificações centenárias e o encantamento brilha. Logo mais, está uma construção nada bacana, mas funcional ao seu objeto comercial que em sua grande parte caracteriza o centro histórico.

É na ausência do movimento dos trabalhadores e transeuntes que a cidade se apresenta mais dinâmica na sua paisagem urbana. O novo comprimindo o velho numa mistura apática. Os comércios lícitos e ilícitos compõem a transformação urbana redesenhando o espaço público. Tudo parece tão descartável, empenhamos nossas vontades à urbanidade e a memória que constrói nossa identidade se esvai.

É na diversidade de seus vastos aromas e sabores que encontramos nas feiras coisas e espaço da terra a serem apreciadas e enriquecidas. Já as edificações escolares e os museus se sobressaem em detalhes e cores, lugares pra estimular a criatividade e indispensável para o crescimento de cada geração.
Quando chegamos a Matriz Nossa Senhora da Conceição encontramos símbolos que devidamente abordam as questões dos valores humanos. Lugar de estratificação histórica e de inspiração. Uma bela paisagem que tem mantido intacto o relacionamento com a memória através da arquitetura que mostra forte sensibilidade à atenção à beleza.

O aspecto multicultural é reconhecido quando percorremos o trajeto do Porto da Manaus Moderna até a Praça São Sebastião. Pessoas de todos os lugares estão a captar as impressões principalmente do magnificente Teatro Amazonas. Em seu entorno, percebemos um espaço já reconstituído e apraz de deleite quando nesse presenciamos os mais belos espetáculos do mundo.

Lugares em que as pessoas passam dia após dia também despertam impactos. A disposição de ambientes pode gerar solidão, bem-estar ou desconforto. Nos espaços de convivência comum vemos os equipamentos urbanos que se inserem nas calçadas e praças, quase na sua totalidade inadequadamente, e mal conservados. Temos como exemplos os telefones públicos, floreiras, lixeiras e containeres cobertos de lixo por dentro e por fora, horas a fio.

Ainda vemos casas, bares, hospitais, hotéis e muito mais. A perspectiva de sustentabilidade urbana do centro de Manaus, ao meu olhar, abrange estratégias de desenvolvimento que prioritariamente integrem o patrimônio histórico e a necessidade emergente funcional, a gestão ambiental e territorial. Também é prioritária a interligação do transporte urbano em uma logística que aporte outros serviços em sua área de convergência.

Isso para que o manauara possa viver um tempo não só produtivo mas onde a emoção e a riqueza seja instrumento de uma nova convivência.

Artigo publicado em Lar & Cia - Amazonas em Tempo em 05/09/08

Distinguir é preciso!

A natureza humana é mesmo surpreendente. Ao atingirmos um nível razoável de liberdade e acesso a informação, a intimidade do lixo e luxo muito se aproxima. Lixo, por hora, tesouro estripado pelas pessoas de extrema privação e luxo: adorno dos espíritos afoitos de pretensão. Esse tem uma vida apreciada e longa àquele, também elaborado, bruscamente descartado.

De fato, tomando ambos como coisa, não há diferença. A trajetória do nascer e o morrer de uma coisa, da mais elaborada a menos bruta, envolve sempre a obtenção de um recurso, processo de fabricação, distribuição, uso e descarte final. Em cada uma destas etapas estão estruturalmente ligados a sua condição a sociedade, a cultura, a economia e o meio ambiente.

Todo recurso, seja mineral, celulose, cereal, proteína animal ou água, é extraído da Terra. A velocidade de exploração destas matérias nas últimas décadas é alarmante. Mais da terça parte dos recursos não renováveis do planeta já foram dizimados.
Os modelos atuais dos processos produtivos dos bens de consumo ainda poluem o solo, o ar e os cursos d’água, colocando o nosso planeta em alerta, além de grande parte das indústrias se valerem da mão de obra barata e de relações trabalhistas deficientes. O mesmo acontece com a distribuição dos produtos já prontos, que envolvem infra-estruturas de transporte e mais consumo de energia.

A partir daí, as coisas prontas e embaladas são postas à disposição do frenesi do consumo. Não importa, lixo ou luxo, compulsivamente se compra e já não mais se distingue a origem, os processos, a matéria, os meios com que chegaram, os símbolos, as letrinhas dos rótulos e os preços.

O filtro se faz necessário, pois nossa agenda diária já não nos permite que o faça. A futilidade ou frugalidade das compras também pouco se leva em conta, pois, na verdade, o que se importam é que se tenha. Desse modo, deixamos de ser ao se cercar de coisas que tão logo são descartadas.

O destino final das coisas é problema que está para ser solucionado em todos os países do nosso planeta. A incineração, disposição no solo ou a recuperação: pouco se sabe e muito se discute. Enquanto isso, uma quantidade inestimável de lixo nos cerca, salvo algumas atitudes como as dos catadores que, por necessidade, se valem deste precioso material.

Assim, embrulhados estamos, envoltos à máscara feita embalagem que acobertam nossos apetites e estilo de vida. Embora logo possamos ser novamente manipulados e também descartados, já não distinguimos o que compramos. Como já diz Lenine: será que é tempo que me falta pra perceber?

Artigo editado em Lar & Cia - Amazonas em Tempo em 07/11/08

A ecologia da paisagem urbana

A cidade deve nos acolher em uma dimensão espacial e temporal que nos garanta condições adequadas para o trabalho, para alimentar-se, relacionar-se, divertir-se e estimular nossa essência afetiva. Um lugar para viver, habitar, viajar, aprender, desejar e também de memória.

O uso de materiais e energia para que a cidade provenha a sua função deve prever os recursos, a paisagem, a sociedade, a cultura e a história com a máxima eficiência. Porém, a emergência ambiental urbana associada ao atual modelo do comportamento humano impõe uma infra-estrutura urbana de interferência e de afinidades.

No centro da cidade de Manaus encontramos, como exemplo, os espaços riquíssimos de edificações históricas esmagados pela nova necessidade funcional do comércio que re-desenha e delimita o espaço de convivência comum. Verificamos também serviços essenciais que vêm como pacotes embrulhados de outros modelos urbanos que nem sempre se coadunam com a realidade local como percebemos na logística adotada no transporte.

A cidade moderna é funcional e dinâmica mas perde a dimensão humana. Um exemplo disso é a exclusão dos serviços públicos como o de lazer na periferia e a inserção de equipamentos urbanos em sua maioria dispostos inadequadamente nos bairros onde a administração pública tem maior atenção.

Vemos neste caso, as paradas de ônibus, os telefones públicos, floreiras, lixeiras e os containeres de lixo que estão em todos os lugares, sem qualquer cuidado e integração com a paisagem, seja um lugar moderno, contemporâneo ou antigo. Podemos ainda adicionar a tudo isso a falta de gestão pública integrada para administrar a segurança e limpeza destes espaços.

Reconhecemos assim a política da diferença e a dependência do espaço urbano da relação de poder.

No entanto, casa, espaço coletivo, cidade é a nossa identidade que devemos construir, cuidar e agir a cada dia. Porém, nossa agenda diária é cheia e precisamos logo nos refugiar em casa para recuperar energia e repetir uma jornada sucessiva. De volta ao trabalho passamos alheios aos espaços individuais e coletivos e não vemos o quanto à degradação ambiental urbana nos cerca.

Nesta roda viva, a velocidade do dia a dia nos faz mandar para os ares a emoção. Vivemos crises econômicas, ambientais e o caos que é a cidade hoje. O sistema é complexo e nossa percepção alhures. Estamos muito longe, alheios, sem sentimento e interação com o que nos cerca.

Entretanto, tudo isto nos é inerente e essa é a impressão que deixamos como marca da nossa geração pois da responsabilidade histórica é que nasce a maturidade e a força da consciência.

Artigo publicado em 20/11/08 na Revista Universo.