quinta-feira, 4 de abril de 2013

Distinguir é preciso!

A natureza humana é mesmo surpreendente. Ao atingirmos um nível razoável de liberdade e acesso a informação, a intimidade do lixo e luxo muito se aproxima. Lixo, por hora, tesouro estripado pelas pessoas de extrema privação e luxo: adorno dos espíritos afoitos de pretensão. Esse tem uma vida apreciada e longa àquele, também elaborado, bruscamente descartado.

De fato, tomando ambos como coisa, não há diferença. A trajetória do nascer e o morrer de uma coisa, da mais elaborada a menos bruta, envolve sempre a obtenção de um recurso, processo de fabricação, distribuição, uso e descarte final. Em cada uma destas etapas estão estruturalmente ligados a sua condição a sociedade, a cultura, a economia e o meio ambiente.

Todo recurso, seja mineral, celulose, cereal, proteína animal ou água, é extraído da Terra. A velocidade de exploração destas matérias nas últimas décadas é alarmante. Mais da terça parte dos recursos não renováveis do planeta já foram dizimados.
Os modelos atuais dos processos produtivos dos bens de consumo ainda poluem o solo, o ar e os cursos d’água, colocando o nosso planeta em alerta, além de grande parte das indústrias se valerem da mão de obra barata e de relações trabalhistas deficientes. O mesmo acontece com a distribuição dos produtos já prontos, que envolvem infra-estruturas de transporte e mais consumo de energia.

A partir daí, as coisas prontas e embaladas são postas à disposição do frenesi do consumo. Não importa, lixo ou luxo, compulsivamente se compra e já não mais se distingue a origem, os processos, a matéria, os meios com que chegaram, os símbolos, as letrinhas dos rótulos e os preços.

O filtro se faz necessário, pois nossa agenda diária já não nos permite que o faça. A futilidade ou frugalidade das compras também pouco se leva em conta, pois, na verdade, o que se importam é que se tenha. Desse modo, deixamos de ser ao se cercar de coisas que tão logo são descartadas.

O destino final das coisas é problema que está para ser solucionado em todos os países do nosso planeta. A incineração, disposição no solo ou a recuperação: pouco se sabe e muito se discute. Enquanto isso, uma quantidade inestimável de lixo nos cerca, salvo algumas atitudes como as dos catadores que, por necessidade, se valem deste precioso material.

Assim, embrulhados estamos, envoltos à máscara feita embalagem que acobertam nossos apetites e estilo de vida. Embora logo possamos ser novamente manipulados e também descartados, já não distinguimos o que compramos. Como já diz Lenine: será que é tempo que me falta pra perceber?

Artigo editado em Lar & Cia - Amazonas em Tempo em 07/11/08

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